terça-feira, novembro 13, 2007

passeando por mim


Ultimamente tenho andado para além de irritado, cansado ,aborrecido entres tantos outros estados de espirito, um pouco introspectivo em relação ao pouco que o mundo da Internet "me trouxe"... Quando relembro de certas situações por vezes penso para mim mesmo e pergunto "Que raio de mundo é este que nos inunda a vida e nos traz tanto surpresas "boas", como surpresas que no final, se calhar foram erros totais, ilusões perdidas, mas nenhuma delas sentida como perda de tempo, apesar de tudo o que possa ter acontecido...?!"
Já passaram várias pessoas pela minha "netlife"... e pela minha "realitylife"...

Hoje sinto-me ...... um pouco triste, vejo que as amizade estam-se a esgotar, que nada é como antes. Hoje em dia apenas trocamos meia dúzia de palavras...faltará pouco para que daqui nada apenas digamos um simples “olá”...ou se calhar nem isso diremos... Onde estão todas aquelas palavras?! Onde está aquela pessoa que tinha sempre assunto, nem que fosse o mais estapafúrdio?! Onde estão aquelas horas e horas a falar?! Onde está tudo?! Porque estamos a permitir que tudo o que construímos, seja levado pelo vento, seja evaporado pelo sol...sem deixar rasto algum de alegria?! Porque estamos cada vez mais distantes...até parece que nunca nos conhecemos, que nunca tivemos nada, e no fundo tivemos e muito...


Como eu te queria como antes...? Sinto-te a fugir por entres os dedos, tal como a areia da praia e não sei o que fazer... apenas não quero que esta amizade que desfaça ao um ritmo alucinante, que teima em levá-la...e estou a ver que não consigo impedir...

" No Voo De Uma Lágrima "












" No Voo De Uma Lágrima "



Nasci de um pedaço de espelho
Que reflectia uma lágrima tua
Que se transformou em ave e voou
Para bem longe de mim,
Levando-te com ela.
Busco-te nas memórias que não são minhas,
São nossas!
Busco-te na esperança de deixar de existir um eu,
Para viver um nós!
Calo-me nas minhas próprias perguntas,
Dando respostas mudas aos chamamentos do destino.
Sigo-te na sombra do passado,
Com asas de lágrima e plumas de dor!
Se te esqueço temo cair,
Sem rede que me resguarde do vazio profundo do teu ser.
Afogar-me-ei na tua imensa presença
Se um dia fechar os meus braços ao teu corpo.
Mas tudo são lembranças
Na linha ténue de uma maré há muito ida…
Tudo são gritos de alguém que há muito se calou
Na escura noite de um beijo…
Protejo-me, então, na caverna que fomos nós
E faço do gelo que aqui cresce o meu espelho,
Nele vejo as minhas lágrimas,
Esperando que um dia uma delas voe
De regresso a ti...

domingo, novembro 11, 2007

11111!



ensaio de David Lynch



"I like darkness and confusion and absurdity, but I like to know that there could be a little door that you could go out into a safe life area of happiness."David Lynch

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" Eu gosto da escuridão , da confusão e do absurdo , mas eu gosto de aprender aquilo que pode abrir uma portinha e que pode fazer você sair e adentrar a salvo na área de uma vida de felicidade!"


ensaio de David Lynch


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:: ainda :::: blogspotting ::alguém perdeu o meu blog e o achou. di-lo o sitemeter, que alguém foi ao google procurar por mim.não é que eu goste de falar nos assuntos da praxe [por esse motivo nunca falei dos incêndios, nem do 11 de Setembro, nem dos escândalos políticos, nem da teoria da universidade inglesa que afirma que lemos as palavras como um todo. para quê?, se todos falam?]. mas este é uma excepção. nunca ninguém veio parar ao little black spot como resultado de buscas duvidosas. ou há-de-ser a tradução da letra X, ou então isto mesmo: 'little black spot blog'.
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:: que será da natureza do mal? ::

Um belíssimo texto, dos melhores que tenho lido, sobre a dualidade da natureza do mal:
<< :: que será da natureza do mal? ::será que alguém pode ajudar a natureza do mal? Ironicamente, algo de demoníaco parece ter-se apossado do template que agora tem vontade própria e anda sozinho a fazer estragos. um pedido de auxílio a quem perceba de exorcismos eletrônicos, se faz favor ! >>posted by saturnine
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por motivo de um lirismo inconseqüente, um dia achei-me folha caída. é incontornável, sou um filho do Outono e Inverno ... E o que antes me inspirava medo, discretamente se acomoda agora em pressentimento de que talvez tudo esteja certo... Que talvez Outubro venha e reencontre o que de mim ficou perdido pelas veredas do verão.

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Custa-me por vezes ainda a falta que me surpreende em certos momentos, tanto que me obriga a trazer um cobertor ou uma manta pelos ombros em pleno Setembro, como se o calor lá fora fosse um mero engano, um desencontro com a realidade do frio dentro deste corpo-crisálida, amedrontado e espectante de qualquer coisa.

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A pele



Agora tu vais, e leva o coração nas mãos.

Protege-o das intempéries, que se avizinha o frio do inverno e a chuva não é um lugar feito para os músculos cardíacos.

Vais e depois, quando eu olhar para as tuas costas à distância, terás partido para sempre - eu que fingi não estar quando a tua sombra assomou à soleira da minha porta.

Vais e não mais teremos um céu que nos cubra aos dois, nem a norte nem a sul.

Vais, porque o nosso tempo acabou, muito cedo foi tarde demais, e esse coração que levas na mão não resistirá ao frio e à chuva, mais um ano ou dois em silêncio, até que eu sofra de novo o inconveniente de lembrar-te.

Estou a aprender. mas ainda só os mortos sabem morrer.

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http://noite.do.sapo.pt/2007_01_01_arquivo.html
http://noite.do.sapo.pt/2007_01_01_arquivo.html

:: Isto é ::

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sinto falta do dia em que senti falta de ser criança. agora creio poder dizer estar preparado para que o Outono venha.
Tenho comigo: " A Árvore e A Floresta, de Sophia de Mello Breyner."Não sei exatamente o que é recuperar uma infância perdida . Sei que leio contos quase infantis de vez em quando volto a isto.
quando acontece o cansaço que me impede de concentrar-me em mais do que duas linhas de leitura. Ou a grandes clássicos da literatura à minha disposição, cansaço mínimo garantido..!

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:: Há magia por dentro do que vive! ::


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:: Há magia por dentro do que vive,

o próprio desencontro reafirma a eternidade que sonho :: Não se trata de vida poetizada, nem de metáforas inacessíveis aos arrepios do corpo: é bem real a poesia intrínseca das coisas em certos momentos, e o rigor com que a alma regressa complacente ao lugar que ocupa dentro do corpo. Nada poderia (a)pagar o dia de hoje. Tudo está no lugar em que deveria estar ,até o amor desmembrado, desastrado, adormecido sob a memória do sol . As horas são mansas para com o ardor latente, ao contrário do hábito das minhas noites inflamadas. Tudo repousa, e só uma levíssima aflição que quase dói me distrai. O silêncio hoje tornou-se livre e não tenho medo. Não sei porquê, mas já não tenho medo. Como vêem, uma palavra na hora certa pode ser, mais do que balsâmico, quase redentor.
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......! Arrisco


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Arrisco
tão só esgravato
a terra com as unhas

sujas cortadas pobres
mas é na pedra que risco
que deixo o sangue
e pedaços de pele
o pouco de mim que
sobra para gastar
num vôo rente ao chão
porque é precário ainda este solo
de urzes e cardos entrelaçados
e eu aqui esperando flores.
by :saturnine
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de traço
em traço
me perco
e refaço
do refaço
faço o traço
do traço faço
o risco onde
me arrisco

(Cássio Amaral e... Cintia Simões Santiago)
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:: que farei quando tudo arde? ::



:: que farei quando tudo arde? ::


esta noite, o suspiro que não se ouve no alto da montanha. a criança corre de joelhos esfolados perseguindo o cheiro a bolos quentes. caída ao lado, a bicicleta que nunca usou. não vejo traços de bonecas, não recordo o odor da madeira do velho teatro, invento uma janela com vista para o prado onde se esconde o verde dos olhos que um dia me esperaram. joga-se à cabra-cega com a memória. não tenho nada para dizer senão o engano do que não fui. e por isso mesmo, tudo arde o seu fogo fértil.

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DESIRES ( DESEJOS )




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Procurei a página do Ithaca apenas para me situar, para me certificar que estáva lá. mas o primeiro poema que li foi este:

DESIRES


Like beautiful bodies of the dead who had not grown old

and they shut them, with tears, in a magnificent mausoleum,with roses at the head and jasmine at the feet -that is how desires look that have passedwithout fulfillment;

without one of them having achieved

a night of sensual delight, or a moonlit morn.


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DESEJOS

Gosto do lindos corpos dos mortos que não amadureceram ...

Cerrados , com lágrimas , em um magnifico mausoléu ,Com rosas e jasmins

da cabeça aos pés –aquilo é como desejar olhar aquela que tem "feito a passagem "

sem satisfação ; sem ter a execução de

uma noite sensual de deleite , o luar ou luz da manhã.


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[certas coisas apenas se sucedem porque, no que à escrita diz respeito, não podem acontecer em simultâneo.]


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sábado, novembro 10, 2007

imagens para complementar depois!





































Suspiros



Un suspiro más,
otra pequeña felicidad
escapando con este.
Vivo entre suspiros,
susurrando mi vida en ellos,
dejando escapar la alegría con ellos.
¿Por que los suspiros son tan malagradecidos?
, uno los guarda en el fondo de su ser,
los alimenta,
los hace crecer y
cuando al fin se les deja libres
los muy desgraciados se llevan consigo a la tan escasa alegría...
Mis dulces suspiros,

se me va la vida en ellos,
ya suspiro sin darme cuenta,
ya pierdo la vida sin notarlo.
Mis suspiros que viajan a través del aire
para irse a reunir a la luna,
para formar una bella reunión de recuerdos perdidos.
Mis suspiros que viajan a tu lado,
que son por y para ti,
aquellos en los que se van
mis esperanzas de amor.
Un suspiro más,
tratado de ser disimulado
por un malogrado bostezo,
un parpadeo más,
una pequeña lagrima formándose
y quedando atrapada
por mi débil miedo a llorar,
otro suspiro y la lagrima escapa
pese a mis esfuerzos.
Un suspiro nuevo
ahora en honor de
la lagrima perdida...
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20-02-06
Rosa Negra
Publicado por Rosa Negra em:


blur


dizes-me meu amor:
"vivemos cercados de eternidade e não temos tempo"?.
E assim passamos ao lado de tudo guardando não mais que um efeito blur?.
O damásio diz que as imagens dos objectos e dos acontecimentos, e ainda as palavras ou as frases que os referem, nos ocupam quase toda a nossa memória.
Talvez tenha razão e, talvez avancem ainda pelos nossos sentimentos e emoções.
Mas não Guardamos nada de muito nítido quando nos preparamos para adormecer.
A representação mais próxima desse túnel pré-narcótico encontrei-a no museu do chiado , no azilo da alma em , Vermeer, e em ti ...

::A espuma dos dias ::


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A ESPUMA DOS DIAS
uma enorme floresta submersa.
O suave movimento das árvores é exagerado pelas páginas nelas penduradas num baile que se avista de longe.
A luz é intensa aqui e estranhamente ausente ali ao lado.
As palavras rasgam correntes que apenas se detectam pela difracção da luz que atravessa os caminhos.
Um coro de cavalos marinhos entoa canções da rive gauche (orla esquerda ).
Um enorme navio passa à superfície mas apenas se nota a agitação das águas que resulta da mão da Sarah brincando com as ondas.
E é assim que eu leio a espuma dos dias.


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quinta-feira, novembro 08, 2007

Do código das cores


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Pergunto o que sentias
Perguntava o que sentias
E falavas em cores ,
E quanto gostavas de mim
E descrevias amarelos ,
brilhantes ou mate ,
consoante os dias
Variando com as horas
Nunca compreendi
a língua das tuas cores
até ao dia em que ,
sem palavras ,
achei vermelho ,
recitei verde e
pensei azul
Sim ,
azulo-te !
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Vol d’oiseaux (Vôo das Aves )


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Vol d’oiseaux

(Vôo das Aves )


sempre te vi em movimento.
Observei-te quedo e imaginei o mundo visto desse vôo tão harmonioso.
Agora que finalmente encontro asas nas palavras,
pareces-me imóvel num salão em silêncio.
Procura a menina que tem um pássaro no lugar do coração...
E vem daí para
um pas de deux. ( passo de dois )

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MUNDO IMAGINADO



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Amie des heures où aucun être ne reste, où tout se refuse au coeur amer; consolatrice dont la présence atteste tant de caresses qui flottent dans l'air, si l'on renonce à vivre, si l'on renie ce qui était et ce qui peut arriver, pense-t-on jamais assez à l'insistante amie qui à cotê de nous fait son oeuvre de fée.


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consoladora das horas em que todos se foram, em que tudo foge do coração amargo, a sua simples presença atesta que no ar pairam todas as carícias. quando perdemos o gosto de viver, ou renunciamos à vida, ao que foi e ao que pode ainda ser, alguma vez atentamos, como devíamos, na amiga persistente que, a nosso lado, faz trabalhos de fada?

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Frutos e apontamentos Rainer Maria Rilke tradução de Maria Gabriela Llansol relógio d'água, 1996. "


::Os filhos do inverno ! ::


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É estranho este incomum jeito peculiar que nós os filhos do inverno temos ...
Caminhamos sempre carregando as lembranças
Além do peso de determinações antigas e canções ancestrais que carregamos na alma !
Os dias parecem sussurrar em nosso ouvido cantando as canções da Terra ...
Da Terra em nosso espírito , canções dos dia ... , que assim como no inverno , descem as sombras para depois retornar a luz ! relembrando um ciclo de vida e morte resssureição e renascimento , natureal e dentro de nós!
Tudo parece fora do lugar e conectado !
E as três outras estações irrompem sobre nós , como um verdadeiro exército italiano , expondo-nos a loucura charmosa sob o sol ; o calor ; vermelho ; e a imensidão de matizes escarlates e formas distorcidas , como nas pinturas dos " Jardins de Monet " e... ainda assim me sinto afinado com o pulso do universo
Na minha quietude ; calma ; e solidão ...Eu ouço as flutuações da matéria !
E diante de tantos outros seres diferentes e lugares comuns, eu flutuo , flutuo acima de qualquer eflúvio que me impede de prosseguir para o norte , peregrinando em direção ao inverno , em eterna caminhada pela minha história e o destoar de todo o resto . Eu peregrino por todos os lugares , até como ex-exilado chegar até as terras frias do norte , do inverno de onde vim ...
E .... Lá adiante de mim , colori meu mundo em delicado matiz pastel ...
E em resumida harmonia , e invernal paz interior.
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Perdi, na descoberta do corpo, o sentido da invenção do amor...Fiz-me fluído: sangue, suor, fis-me lágrimas!


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Aos 18 anos descobri o sentido do corpo.
Que se ama visceralmente, como quem faz das tripas coração.
Na metáfora do corpo a corpo, o que há de apaixonado na luta e o que há de violento na paixão.
Cultivei o amor profundo pela epiderme e fiz da escrita um tecido intrincado de ramificações sangüíneas e terminações nervosas.
Apurei a construção: substitui-se o minotauro pelo prolapso sistólico da válcula mitral.
O corpo um gigantesco órgão, de um barro impuro, que falha e dói.
Perdi, na descoberta do corpo, o sentido da invenção do amor.
Fiz-me fluído: sangue, suor, lágrimas, secreções, pus. uma intacta ferida.
No lugar do peito, uma inscrição invisível, um emblema de Louise Bourgeois
: Rouge est la couleur du sang.
Ao fundo, um disco de
Einstürzende Neubauten.
Esgotado o amor, um novo sentido para o corpo: a construção de uma anatomia das palavras.
Fazer das entranhas um hábito do desenho.
Aqui estou eu, tão cedo tarde demais, a procurar o sentido de outros corpos, abeirando-me de outros discos.
Fiz da incerteza uma dedicação profunda às funções corporais.
Se eu tivesse um físico tumor, chamava-lhe...Laurein
Mas tenho maus fígados e um coração despedaçado
.

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A Dor


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*o sal na ferida*

três cordas tensas

disputam o ponto exacto do desassossego

uma ponte ou uma torre ou um arco

ruindo na desolação destes dias inúteis.

Qualquer coisa podia acontecer

se apenas um vento breve soprasse

mas tudo reside incerto

e imóvel um mesmo silêncio agudo

a rodear-me como espuma

descontente de ser branca e fria.

Se ao menos um vento brando soprasse

e qualquer coisa acontecesse

um barco ou navio ou jangada

cruzasse o horizonte distante

eu não tivesse de me fazer ao mar

tão despreparado

tão nu tão

despido de ti.

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:: Lisbôa, cidade azul :: É sempre assim. é um ar que se respira que é diferente deste, apenas porque é o ar de um outro lugar, um outro céu porque debaixo deste estão os amigos e os nossos passeios pelas ruas estreitas, pela margem do rio, um outro azul porque este tem o tom da calma possível, o bálsamo para o frágil coração em brasa. regresso sempre acompanhada de mais livros e mais música e mais saudades do que não tive tempo para fazer. dos fragmentos de luz ao fim da tarde, do cheiro da praia que ainda não senti este verão, de um cigarro que não me lembre exclusivamente de ti. incomoda-me que pertençamos a uns lugares e não a outros. que nos doam as raízes profundas se nos afastamos para os lugares onde estaríamos melhor do que aqui. "-------------------------------------------------------------------------------------

Da escrita e outras coisas!



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:: Da escrita ::




Desde que comecei a escrever mais online verifico que escrevo consequentemente menos meus cadernos de papel e linhas. a vantagem (e o consolo) é que sentada em frente do computador escrevo incomparavelmente mais e melhor, porque a qualquer momento - entre e execução de um trabalho ou um jogo - estou sempre disponível para ir digitando o que me vai na alma. a grande desvantagem é que perco o romantismo incontornável do registo caligráfico, do sentimento na textura do papel entre os dedos, do cheiro das páginas envelhecidas depois de um ano guardadas no baú. a verdade é que gosto, esteticamente, da escrita. da caligrafia. mas nos cadernos não tenho as fotografias todas sempre à mão, nem os poemas, nem os registos dos outros para enroscar nos meus.




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repugna-me a indiferença da tua mentira, terna como se fingisses um gostar que me insulta.




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[ poema do desamor contínuo ]




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[ poema do desamor contínuo ]




[ poema do desamor contínuo ]
. . . . .. . . . . . . .. ... .. . . . .
não é certo que me exiles
que das tuas mãos
nada cresça
senão as pedras
o tecido desgastado do silêncio
está já esticado
à beira da ruptura
um arco demasiado tenso
que arrisca rebentar-me
nos braços
este solo pisado e magoado
vezes sem conta
suspira já o cansaço
de ser ruína ponte
tateando lugar nenhum
senão o degredo
a que me votas
não posso mais
- porque não posso -
dar-me a este desconsolo
nem a noite é já suficiente
para que qualquer coisa
se resgate
agora quero apenas
a calma
ou
alguma coisa parecida
um rumor imprevisto
improvável
tudo menos este silêncio
esta brutalidade
com que pela indiferença
me aniquilas. ... . . .

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:: exílios #1 ::
o templo uma montanha que desaba o arco livre os interstícios do deserto por entre o negro se desfaz a luz em blocos uma ruína no lugar do silêncio.

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:: a ferida aberta ::


Nunca li atentamente o reflexos de azul eléctrico até hoje. gostei deste post. sobre ele deambulo e divago. a própria palavra 'ferida' acende em mim uma brasa incandescente de fascínio. pela sonoridade, pelas imagens que evoca e recria. então adicionemo-lhe a palavra 'sal' e teremos alcançado a mais exata pungência da palavra sobre a pele. isto é, quem é que - perante o sal na ferida - não se cobre de ardências fundas e dolorosas, ou não sente que o mar inteiro se esvai por entre as frestas abertas da alma ferida? De tudo faço ferida. e não é que goste que me doa. é, talvez, uma estranha aproximação ao primordial. a isto ocorre-me acrescentar o espanto do gigantesco engano ao olhar as feridas um dia - latentes ou adormecidas ou curadas - e perceber que são marcas de um inferno improvável, por nós inventado.
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Como Antígona




:: como Antígona ::

Eu sou aquele que não aprendeu a vergar-se perante as desgraças. os joelhos podem dobrar-se mas o espírito continua ereto e a espinha não se quebrará !


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«Há uma certa ironia quando se usa a expressão "Não Fode Nem Sai De Cima"

para falar de alguém que nos rouba o coração mas não nos ama.»


[avatares de um desejo ]


[não é ainda um regresso. estou só à porta a chutar os móveis. aconteceu-me exatamente uma coisa assim. insuflei. entre o aperto e a quebra, ainda assim alguma em mim se reafirmou. talvez consiga. os passos que ainda são muitos para os meus pés. alcancei a superfície e respirei de uma golfada. por um momento, voltei a pertencer-me e decidi o rumo dos meus soluços. tenho o rosto endurecido e a alma estilhaçada. mas encontro-me e reconheço-me em cada um dos fragmentos destroçados. não preciso de ti afinal. e consigo passar-te por cima como o bulldozer monolítico que sempre fui.
O amor e o cansaço não se implicam. A diferença do dia de hoje é que, no lugar do " te odeio " o meu grito é : "não preciso mais de ti ! " ]

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:: Os dias prometidos ::



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:: Os dias prometidos ::

para saber mais, seguir em busca dos dias prometidos.
este sou eu.
este também. creio ter-me escondido por medo que as promessas não se cumprissem. mas hoje, tudo é limpo e renovado. há surpresas que valem pequenos milagres. a natureza do mal veio até mim e (re)conheci um rosto próximo e familiar. há coisas inexplicáveis. :)

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:: Post-metade, ou dualidade sobre as promessas ::



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Post-metade, ou dualidade sobre as promessas ::


Dizia eu que afinal, inesperadamente, acontecem pequenos milagres. Nem tudo é exílio, nem tudo é templo que desmorona, nem tudo é tempo esquartejado. Há momentos com o seu tempo certo, com a sua fibra certa, com a limpidez e o rigor das promessas resgatadas dos destroços. o que me aconteceu, ainda, no dia de hoje foi isto: um dia prometido concretizado, um desejo feito matéria viva, um pedido concedido, como se tivesse esfregado uma lâmpada que atrasou o Setembro e me devolveu o azul que não fui a tempo de viver. Ah, sim... hoje fui à praia. tomei banho no mar e salguei as feridas.


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E.. o futuro !


I
Doravante já não haverá histórias para contar ao fim do dia, já não haverão as horas tardias de abraços tão mornos em frente ao televisor, já não haverá a possibilidade do convite para um passeio, para as coisas que se gosta de fazer a dois, tal como já não haverá o mesmo reconhecimento na voz, nem os telefonemas religiosos como um culto, nem sequer a disponibilidade para uma pergunta, para uma coisa qualquer que se diga que estreite o espaço - que ainda assim é tão doloroso, tão vasto - entre duas pessoas que se tocam na brevidade de um encontro. doravante já não haverá o que justifique preocupar-me se são seguras as tuas viagens de regresso a casa.
II
Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer

(Pergunta-me Mia Couto )
III
A deslocação interna dos órgãos vitais do amor em ruína asseguram a distância que de agora em diante nos diferenciará. Não mais nos confundiremos em desencontros e súplicas, nem as feridas abertas reclamarão o bálsamo do nosso nome comum. Em silêncio, o que havia de incerto estilhaça-se e desfaz-se para sempre. Há partes de mim deslocadas. mas que talvez estejam a caminhar para o lugar a que pertencem. Se fosse possível ainda - ou já - no tempo da saudade. Mas não é e não me atrevo a dizer o que sempre te quis dizer..: lamento, agora pertence a outrem. Tenho duas mãos postas no meu coração e basta-me. posted
by saturnine

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domingo, outubro 28, 2007

Excerto do poema Ithaca de Konstantin Kavafis.


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Este é um excerto do poema Ithaca de Konstantin Kavafis.

É a parte que eu já compreendo...Que trago comigo.
E escrevo agora porque afinal me enganei, está encomendado.
Teoricamente, teria agora apenas uma coisa a perturbar-me: mas não.
O que substitui a falta de Kavafis é uma falta ainda maior : a incapacidade de ler.
Acumulam-se pilhas de livros no meu quarto...Duas linhas já me cansam. estou esgotado. :

" When you start on your journey to Ithaca,
then pray because that the road is long,
With full of adventure and full of knowledge.
Do not fear the Lestrygonians ,
the Cyclopes and the angry Poseidon.
You will never nothing meet such as this on your path,
if your thoughts remain lofty, and if a fine
emotion touches your body and your spirit.
You will never meet the Lestrygonians,
the Cyclopes and the fierce Poseidon,
if you do carry them with
in your soul,if your soul does not raise them up before you..

"logo em seguida deixei uma Tradução :


" Quando você iniciar sua jornada para Itaca ,
Então reze pois aquela estrada é longa
Com grandes aventuras e profundos conhecimentos .
Não tenha medo dos lestrigonianos ,
os ciclopes e a ira de Possêidon .
Você nunca encontrará nada semelhante como isto em seu
caminho,
Se você não obstante ficar soberbo ,e se uma ótima emoção tocar
seu corpo e seu espírito .
Você nunca encontrará os lestrigonianos ,
os ciclopes e a ira de Possêidon ,
se você levar branca sua alma ,
E se sua alma não se exaltar diante de ti. "


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sexta-feira, outubro 26, 2007

:: Dos ecos dos passos por dentro ::


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:: Dos ecos dos passos por dentro ::



duas coisas me perturbam ultimamente, duas que são muitas no final de contas, mas que sejam duas para começar:
1. não consigo encontrar nada de Konstantin Kavafis. não o vejo nas livrarias, nem nas livrarias online. aparecem algumas páginas na net com pouca informação e um ou outro poema, mas isso não me basta. depois do poema Ítaca eu sinto necessidade de ler tudo e guardar tudo. recomendaram-me ainda Deus ---------------------------abandonou Antínoo. ajudem-me, -------------------------------------------------------------------sim?

2. praticamente não consigo ouvir música. se escolho ouvir, é por necessidade ainda presente de contornar a insônia, mas custa-me a decisão. sinto o risco iminente: tudo o que é afetivo é frágil. a música detém um magnetismo fenomenal no que diz respeito à apropriação da inteireza dos momentos - num rigor de mecanismos intactos que suplantam a própria memória. tenho medo de ouvir música, porque o que ouço hoje será o que não poderei ouvir amanhã. se não quiser arrastar um coro de vozes assombradas atrás de mim.



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:: Rumor ::



:: Rumor ::


sinto falta de um dia preciso. um único fim de tarde no lugar onde me aconteceu lembrar-me que há vários anos não era já criança. uma estrada estreita no primeiro breu de inverno, o mero som dos passos sobre o paralelo, árvores mudas em volta, o cheiro da primeira lenha chegando de longe, e o ar frio que me gelava no rosto um aroma de pinheiros, de pão quente, de castanhas e nozes à mesa de Natal.
sobre esse dia escrevi, sobre o espanto do primeiro negrume de Novembro. sobre o rumor desse mês de promessa de abandono e de morte. mas só hoje me ocorre ter-me doído o sentir distante os dias em que percorríamos a casa vasculhando os armários em busca de presentes embrulhados em papel colorido. isso e as mulheres todas na cozinha a esmigalhar pão para os mexidos.


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Starry Night, Van Gogh




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Starry Night, Van Gogh



por vezes esqueço-me o quanto gosto das coisas que gosto mesmo muito. mesmo no interior de um corpo destroçado, algo de essencial e bom se reúne.
Nada poderá agora deter o sol, e eu rendo os ombros à evidência da estação. caminho sobre folhas, escrevo no prolongamento das sombras. no meu jardim, sinto por vezes chegar o cheiro das uvas e da lenha. é já a certeza de mais uma pequena morte, «ó mãe, tenho mesmo que ir já dormir?»... «sim, já à tua espera está a tua cama de cinzas.»



Posted by saturnine

Lindo !
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:: porque eu avanço e ela não ::



:: porque eu avanço e ela não ::


A morte surda caminha ao meu lado , e não sei em que esquina ela irá me beijar...!
Nem sei porque vem isto a propósito.
talvez porque recordo os primeiros amores de infância, num dia em que a morte afirma a sua presença pelas palavras.
lembro-me da Ise , a Orquídea Negra , com o seu rosto que nunca envelhecerá.
E me vem esta estranheza de alguém que me parece apenas estar num lugar onde eu já não vejo. não sei porquê. acontece que nunca me lembro que tenho um amor que morreu , se foi . e por isso mesmo, se me ocorre pensar nos amores de infância, entristece-me saber que nunca conhecerei o rosto de uma Ise da minha idade. eu avanço e ela não.

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Flores de cravo da Ìndia


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[ Trago flores de cravo da Índia para oferecer às meninas que usaram coroas de espinhos
E pra ti que talvez em tempos de outrora as usasses , ou flores semelhantes aquelas que transportas em espaço dentro de ti , semelhante ao meu.
Trago flores de cravo da Índia , e flores ...
Também a ti, em cujas palavras me converto em transparência.
A ti ,que me desenhou em áspera adversidade... !
Sei Que a adversidade pode ser áspera, mas que nela nascem estrelas.
Por isso não lhe culpo , pois me deste um reflexo de azul eléctrico..
E semeado silêncio que inspira e comove...
E antes mesmo que eu possa exprimir um pensamento ,
os cravos me lembram que antes das lágrimas é sempre o silêncio que se pressente,
unido os lábios , que como duas pedras se quedam numa impossibilidade de palavras.» ]


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Outonal







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:: Outonal ::




hoje
senti o cheiro das uvas
o negrume adoçando os dedos
bago a bago o outono deflagra
e eu ouço
o canto triste dos plátanos
os passos dúbios da chuva
como se em algum lugar
houvesse pão a cozer
e um fogo dentro de casa
noite escura pela tarde ainda a meio
e recordo
os risos em volta da escola
os joelhos esmurrados doridos
esse tom de infância
que nunca mais terei.



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Outonal #2




O lamento visível é
o corpo que não volta
a fazer-se tenro,
como a promessa
de que há-de-crescer !
E nunca mais agora
poderei abraçar um plátano
com braços insuficientes ,
nem cair da bicicleta
para os silvados de amoras,
ou sequer aquietar um pássaro
nas minhas mãos de criança .
Se não fui a tempo
de rir todos os risos ,
cair em todos os caminhos ,
sonhar todas as histórias ,
talvez agora encontre
uma sucessão de passos
semelhante à memória
das sombras, na parede do quarto
dos casacos para enfrentar o vento ,
dos inesperados labirintos do medo !
Aguardo um Outono pacífico !
Um outro silêncio que não este ,
Um poço de folhas para pousa,
o corpo agora desmesurado
amedrontado e espectante.

posted by saturnine
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:: Madressilvas no caminho::



:: Madressilvas no caminho::


Recordo-me da rua quase íngreme, que descia até à antiga casa do avô, que era o único caminho que eu conhecia na minha terra. lembro-me dos molhos de silvas por onde enfiava os braços, alheio aos arranhões, para colher três encantos que desde então nunca mais encontrei aqui: bagos de amoras negras e doces, madressilvas perfumadas com seu corpo de bicho e o cheiro dos eucaliptos nos dedos.
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Do Outono


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Do Outono

Por tua causa
recordo a infância
vertebrada de afetos
Por tua causa,
o cheiro das uvas
nas urzes dos montes
Se me falam de figos
de mesas de Natal
de sol gelando na face
ou de qualquer outra coisa
densa próxima táctil
Acredito na intimidade das sombras
na natureza outonal do meu nome.
posted by saturnine

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:: Drenagem # ::


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:: Drenagem #1 ::

Não sei como dizer disto que me acontece, desta explosão de saudade insaciável, que me chega como escada de pau encostada a um muro que não termina. o que é curioso é que nunca fui criança de vindimas, de brincadeiras na terra preta, de subidas aos muros para roubar laranjas, joelhos esmurrados dos jogos-de-berlindes, nem sequer de histórias contadas pelo avô, biscoitos feitos pela avó. Isso nunca tive.
Nunca uma só vez fiz o caminho de casa de bicicleta, nem me apercebi que eram plátanos que ladeavam os meus passos incertos. acredito que nascem inseguras as crianças do Outono ; tristes e amedrontadas, talvez por nascerem próximas já dessa evidência da morte que é a nudez abandonada das árvores.
O peito enche-se-me de uma aflição irreconhecível, é certo apenas que Novembro está próximo e que terei novamente que aprender a caminhar pelas ruas debaixo de chuva, com as mãos perdidas pelos bolsos.
Tateio as palavras e avoluma-se o engano do que não fui. cresci emparedado pelos labirintos do medo. Fiz-me pedra, fiz-me fonte, fiz-me sombra.
Alheio às buganvílias, às magnólias, às heras que crescem como cabelos pelas paredes e pelas colunas. tive apenas o perfume das madressilvas, a doçura das amoras pretas, os domingos para ir buscar água à fonte.
Agora acontece apetecer-me o conforto do que passou, um lugar à mesa onde houvesse figos, pão e mel, e romãs como as de outrora, mas o que é incontornável são os lugares que restam vazios, e a certeza de que à mesa falta gente, ou falto eu, a tempo de crescer acreditando que o Verão também existe para recompor as almas do suplício da melancolia.
Tenho os gatos, tenho os cadernos de linhas, tenho acima de tudo esta visão sobre o deserto que é o lugar vasto que trago sob a pele, e assim caminho com uma mão aqui, outra ali, titubeando a natureza das feridas com estes equívocos que são os sonhos.
Arde-me por dentro o que até aqui foi o meu corpo, agora encolhido como se procurasse que os braços voltassem a ser pequenos e a oferecer apenas abraços raros, e não sei de fato dizer desta ânsia de um inverno que dure um pouco mais, que me deixe acomodar-me enrolado nas mantas de lã em roda do papel de embrulho rasgado apenas o tempo de esquecer-me que, regressando o verão, faltarás tu.

:: drenagem #2 ::

Hoje vou arrancar as fotografias uma a uma, da mesma forma que os nomes na lista telefônica se misturam em amigos indiferenciados. um outro dia, reunirei os objetos .
E um a um arrumá-los-ei em caixas. Organizar o espaço em volta é a segurança de organizar o espaço em falta [por dentro].
A pouco e pouco, aniquilarei os vestígios desta persistente presença. e não porque o tempo não permita o sossego da convivência, mas porque é chegado o tempo de morrer como morrem as folhas no Outono, e de vagar o espaço para que algo novo venha e dele se ocupe. é tempo de salgar as feridas e queimar a terra. porque chão que arde é chão tornado fértil, e certeza que algum fruto dele nascerá.

by : Saturnine

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.: para depois :.


gostar de ti é um engano, um desfasamento de tempo. certo é o não gostar de gostar de ti, o não suportar este não querer-te simultâneo com a saudade de tudo o que já não és.

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:: Apelo estético ::


É a preguiça, acima de tudo, o princípio gerador do caos que me sustenta.
E não é sem um certo incômodo que percebo a sua ação devastadora perante o tempo que passa, e subitamente me vejo mais próximo do limiar do tempo perdido.
" Tarde demais " é a expressão mais triste de qualquer língua.
No torpor da preguiça, há meses incontáveis que não visito o livro dos dias , que não me passeio pelos jardins do Palácio, que não vou ao cinema, que não leio jornais. só ia onde fosse a minha âncora. hoje, a tristeza de navegar à deriva é ainda assim uma promessa de liberdade, e o desejo de mergulhar finalmente no mundo que me espera. preguiçoso e ignorante é este pontinho. fui uma vez na vida à Casa das Artes, ver um filme que detestei. será compreensível?

DESTE OUTONO


foi hoje o equinócio de Outono no hemisfério norte. equinócio [do Latim aequinoctium] significa 'noite igual', referindo-se ao facto de a duração do dia e da noite ser igual no momento em que o Sol se encontra sobre a linha do Equador.

DESTE OUTONO

Novembro, som absoluto,
com as suas sílabas suaves,
as vogais pairando na aragem,
e na luz lenta dourada outros
sons soltos consoantes.
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas

Postado inicialmente por Saturnine
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:: Estrangulam-nos os sonhos, os covardes ::


Pedem-nos que abdiquemos dos sonhos. pedem-nos que entreguemos os desejos de uma vida no prego, para uma outra geração os resgatar. Dizem-nos que não há espaço no mundo para se ser quem se quer.
E eu vou enfrentando olhos postos em mim , sei que posso fazer muito mais coisas que o natural mas... O problema é que esperam que eu faça e isto sem me pedirem. Isso é impossível para mim. Não espero que me compreendam, mas...Sou uma pessoa que precisa de tempo livre para sonhar , pra sujar as mãos de barro .
Sonhar é meu combustível.
Assim como um carro precisa de combustível eu preciso de meus sonhos e de minhas "viagens sem sair do lugar ". Festas não são o meu forte. Adoro a paz e a calma da minha casa, em especial do meu quarto !
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:: Desfaço durante a noite o meu caminho* ::



somos constantemente atraiçoados pelo subconsciente.
Tudo o que de dia precariamente construo, a noite audaciosa destrói. nisto percebo o que em mim há de Penélepe.
Contra minha vontade, a minha manta se desfaz. aquilo que esqueço e enterro durante o dia, o sono desenterra e traz à luz .
Não se consegue contrariar os sonhos, mesmo quando Ítaca é já uma ilusão distante.


* de Penélope Sophia de Mello Breyner Andresen
postado por Saturnine

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:: A propósito ::


um belíssimo texto, dos melhores que tenho lido, sobre o cibersilêncio:
« Percorro os blogues , a Blogolândia não existe, o que existe é um imenso falar que me suscita o sentido agudo de uma nova espécie de isolamento. Com que este ecrã faz fronteira, como faz fronteira o ecrã do outro.
E todas juntas as fronteiras formam favos, inúmeros favos como os das abelhas, onde há um teclado, um monitor e um ser sozinho que pensa e sente dentro de um favo.
Parafraseando, estou a cair nas malhas que o futuro tece.
Vou sair, coisas do trabalho, banco, papelada, mas também sol, árvores, e pessoas que afinal também são favos, dentro dos contornos rígidos da sua realidade ferozmente individual. »

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O que há de melhor nesta forma de expressão, para mim, é o encontro de afinidades. acusam-nos, a nós bloggers, de umbiguismo, elitismo, narcisismo, e outros quaisquer " ismos " enfadonhos.
Dizem que nos limitamos a falar uns dos outros, a cultivar egocentrismos.
sinceramente, isso não me interessa minimamente. como disse, o que aqui encontro de melhor são as afinidades. será também assim tão dramático nos círculos de amigos em que cada um fala de si e dos outros e constantemente se entrega a uma partilha do que, sendo comum, enriquece afetivamente todos?
Postado por Saturnine em my little black spot na : Quarta-feira, Setembro 24, 2003
Postado também por mim por concordar sobre a beleza do texto e também com a resenha
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